sábado, 8 de outubro de 2011

Arquivos do Dops mostram Lula condenando os hoje aliados Maluf, Delfim Netto e o PMDB


Foi em pleno regime militar que um sindicalista em ascensão gritou para quem quisesse ouvir que o partido que ele fundaria no ano seguinte chegaria ao poder “através do voto livre” para se tornar “a grande força política do Brasil”. Esse mesmo sindicalista também usou a força de seu discurso para condenar os mesmos que o ajudaram a chegar à Presidência do Brasil 30 anos depois.
Esse é um pouco do conteúdo de um prontuário que o Dops (departamento da polícia que vigiava quem fizesse oposição ao governo) da cidade de Santos mantinha de Luiz Inácio Lula da Silva, entre 1979 e 1982. A pasta do então sindicalista acaba de vir a público junto com outros 11.600 prontuários encontrados por acaso nos fundos do Palácio da Polícia de Santos, em março de 2010.
Hoje o financiador da aliança nacional do PT com o PMDB, Lula citou o partido no dia 2 de outubro de 1982, quando ele era candidato a governador de São Paulo. Na ocasião, ele disse na sede do diretório santista do PT “que será fácil de desmascarar [o PMDB] pelas próprias cisões internas”, acrescentando que o então governador peemedebista, Franco Montoro, teria “poucas condições de sustentar essas cisões”.
Antes, no dia 10 de agosto de 1979, os agentes do Dops contaram como Lula se referiu ao então MDB quando passou por Niterói, no Rio de Janeiro: “Em quase duas horas de palestra, Lula condenou por várias vezes a filiação de trabalhadores ao MDB, embora frisando que não era contra o partido – lembrando que [...] subscreveu documento manifestando-se contrário à extinção do MDB por ato de força do governo, mas deixou claro que não tem mais ilusões para com a capacidade do partido de impor mudanças”.
Sobrou até para Maluf e Delfim Netto, que foi ministro da Fazenda do regime militar, mas depois se tornou conselheiro econômico de Lula na Presidência: “Se o [presidente militar João] Figueiredo fosse tão bonzinho como parece, teria na verdade mandado prender os Malufs da vida, os César Cals, os Delfins. Enquanto eles ficam doentes e vão se tratar no exterior viajando com o nosso dinheiro, a classe trabalhadora morre na fila do Inamps [atual INSS - Instituto Nacional do Seguro Social]”. 
A reportagem ligou para a assessoria de Maluf e Delfim Netto para saber a opinião deles sobre a declaração de Lula, mas até a publicação dessa reportagem, ninguém retornou o contato.
O provocativo Lula não poupou nem o ex-presidente Jânio Quadros: “E o Jânio vem falando que representa a renovação. Se ele é renovação, o Napoleão Bonaparte ainda é tenente...”
No dia 20 de abril de 1980, o Dops de Santos se refere a Lula da seguinte forma: “O marginado foi detido por agentes federais às 6:30 horas de ontem, tendo sido encaminhado ao Dops em São Paulo a fim de responder perante a Lei de Segurança Nacional por incitamento à greve”.
Sobre o PT
Em um debate sobre sindicalismo e novos partidos em agosto de 1979 em Cubatão, Lula “falou demoradamente sobre o PT” para 300 pessoas, descreve um informe da polícia. O discurso - considerado pelos militares pura propaganda para o partido que seria fundado no ano seguinte - ganha contornos de previsão quando lido 32 anos depois.
O relato do espião do Dops afirmava que Lula não queria “dirigir o PT nem candidatar-se a nada. O que ele apresentava era apenas uma proposta de um partido que não seria só de patrões nem só de peões, mas que abrangesse várias classes sociais, como médicos, jornalistas, engenheiros e guardas noturnos. Que este partido não deveria depender de autorização de ninguém, que [Leonel] Brizola viesse e criasse o PTB, que Arraes voltasse e criasse o Partido Socialista, que Luiz Carlos Prestes voltasse e criasse o Partido Comunista, mas que fossem criados de baixo para cima. Que o PT realmente será a grande força política do Brasil e que conquistará o poder através do voto livre e democraticamente”.

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